
"...Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha Inventando a
lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de
cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que
estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: 'A senhora vai aprender as
novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque.' Paramos diante
da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra
apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele mandou levar aquele paciente
para a enfermeira e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou
pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: 'Aperte o botão.' E eu
respondi: 'Não aperto.' Aí começou a rebelde."*
E foi
quando não apertou o botão do eletrochoque que Nise da Silveira começou - com
sua rebeldia - uma revolução. Mudou de forma definitiva o tratamento
psiquiátrico que se fazia no Brasil da década de 40 - e influenciou a
psiquiatria do país até os dias de hoje.
Fez da
até então secundária e subalterna terapia ocupacional vedete. Apostava que as
atividades artísticas não eram simplesmente passatempo, mas tratamento de fato.
Acabaram sendo a sua ferramenta para conhecer, estudar e tratar os, usando expressão
de que ela gostava, "inumeráveis estados do ser".
Era
rígida em alguns pontos do trabalho que desempenhava: primeiro, o tratamento
das pessoas com doença mental precisava ser feito com carinho, entendendo o
paciente como um ser humano - com suas sensibilidades, fraquezas, necessidades
- e tratando dele com o respeito necessário. Quem estivesse por perto tinha que
usar do mesmo afeto para cuidar dos doentes mentais - ou virava desafeto.
Segundo
ela, terapia ocupacional não podia ser entendida como mera ocupação. Mais do
que pinturas, desenhos ou arte, enxergava naqueles trabalhos testemunhos e
expressões que possibilitariam o conhecimento mais profundo do universo das
pessoas esquizofrênicas. Essas manifestações, as obras resultantes, permitiam
penetrar no mundo interno daquelas pessoas - por isso não podiam ser vendidas
ou desagregadas. Dinheiro nenhum pagava aquelas expressões e a análise que elas
permitiam das angústias humanas.
Fundou
duas instituições que refletiam o pioneirismo de sua metodologia e de suas
convicções: o Museu de Imagens do Inconsciente e a Casa das Palmeiras. Tão
revolucionárias quanto Nise, as entidades ainda hoje são referência no
tratamento psiquiátrico brasileiro.
De Alagoas à prisão
Nascida
em Maceió, Nise da Silveira deixou Alagoas para estudar medicina na Bahia. Foi
a única mulher numa turma de 157 rapazes. A formatura foi em 1926 e, já no ano
seguinte, Nise rumou para o Rio de Janeiro a fim de procurar trabalho. No
entanto foi só em 1933, quando passou em um concurso público, que sua vida
profissional se cruzou com a psiquiatria para não mais se dissociarem.
Presa em
1936, acusada de comunista, Nise conheceu a privação de liberdade. A
experiência teria no futuro influência determinante na condução de suas
técnicas de tratamento, que evitavam ao máximo o enclausuramento das pessoas
com transtornos mentais. Exemplo disso é a sua iniciativa de criação, anos mais
tarde, de uma instituição diferente dos hospitais da época, com uma proposta de
não internar os pacientes, mas tratá-los com liberdade de entrar e sair, em
regime aberto. Assim nasceria mais à frente a Casa das Palmeiras.
Depois de
libertada, mas diante da ameaça de ser presa novamente, viajou por alguns
estados do Nordeste. Voltou ao serviço público em 1944, indo trabalhar no
Centro Psiquiátrico Nacional (CPN), no bairro carioca do Engenho de Dentro. Foi
nessa volta que protagonizou a cena descrita na abertura desta reportagem. Por
causa de sua discordância com as técnicas então usadas e celebradas -
eletrochoque, choque de insulina, de cardiazol e lobotomia, entre outros -, foi
trabalhar no único setor do hospital onde não tinha que lidar com esses
métodos: o de terapia ocupacional.
Até
então, esse tipo de terapia consistia praticamente em apenas usar os pacientes
dos hospitais psiquiátricos como serviçais. "Os doentes eram usados para
varrer, limpar vasos sanitários, servir outros doentes", recorda ela em
entrevista concedida ao escritor Ferreira Gullar e presente no livro "Nise
da Silveira"*, obra biográfica sobre a médica.
"A
terapia ocupacional daquela época era uma economia para os hospitais, pois
tinham mão-de-obra grátis", resume o psiquiatra Agilberto Calaça, um dos
discípulos da dra. Nise, tendo convivido com ela por 16 anos e trabalhado na
Casa das Palmeiras por dez - cinco dos quais como diretor-técnico.
Jung e animais
Discípulos,
aliás, não lhe faltam: desde os que seguem suas técnicas de tratamento
psiquiátrico até aqueles que lhe seguiam nos estudos do suíço Carl Gustav Jung.
Ainda jovem, Nise da Silveira encantou-se com a psicologia junguiana e passou a
aplicá-la em seu trabalho. Fundou um grupo de estudos sobre Jung e escreveu um
livro-roteiro para o estudo de sua obra. Chegou a trocar correspondências com
ele e a encontrá-lo pessoalmente durante o II Congresso Internacional de
Psiquiatria, em Zurique, Suíça, em 1957. Realizou ainda, em ocasiões distintas,
estudos no Instituto C. G. Jung, localizado na mesma cidade.
Além da
obra do psiquiatra suíço, outra de suas paixões era o convívio com animais. Nas
instituições em que trabalhava, bichos eram uma constante. Não só porque ela
gostava, mas porque eram auxiliares no tratamento de doentes mentais.
Chamava-os de co-terapeutas. Além disso, confiava nos instintos dos animais.
"No
grupo de estudos sobre Jung podia entrar qualquer pessoa, a porta estava sempre
aberta. Sempre havia uma porção de gatos. E, para a dra. Nise, eles eram um
termômetro para saber sobre o caráter da pessoa: se os gatos não gostassem do
indivíduo, ela desconfiava do bom caráter daquela pessoa", relembra a
psicóloga Gladys Schincariol, que participava do grupo de estudos e hoje é
coordenadora de Projetos do Museu de Imagens do Inconsciente.
A
psiquiatra chega a relatar, no livro de Ferreira Gullar, o caso de um paciente
que se curou somente porque recebeu a responsabilidade de cuidar de uma cadela
encontrada no terreno do CPN, onde trabalhava desde que havia sido readmitida
no serviço público - e onde continuou trabalhando durante toda a vida.
Obras de arte e "clientes": os legados do Museu de Imagens
do Inconsciente e da Casa das Palmeiras
Foi
justamente dentro do CPN que Nise da Silveira fundou uma das duas instituições
que mais marcam a sua carreira: o Museu de Imagens do Inconsciente, criado a
partir das obras produzidas pelos esquizofrênicos que participavam da Seção de
Terapêutica Ocupacional, que ela coordenava. A fundação do Museu aconteceu em
1952, de forma inusitada.
Trabalhava
no CPN um funcionário que fazia aulas de pintura, Almir Mavignier, que se
surpreendeu com os trabalhos produzidos pelos pacientes da Seção de Terapêutica
Ocupacional. Ele chamou, para conhecer o trabalho, o crítico de arte Mario
Pedrosa, que teve a mesma surpresa e, por sua vez, levou à Seção o diretor do
Museu de Arte Moderna de São Paulo, o francês Leon Degand - que também ficou
admirado com o que encontrou. O resultado dessa admiração em cadeia foi uma
exposição dos trabalhos produzidos pelos pacientes da dra. Nise no Museu de
Arte Moderna de São Paulo, para a qual a médica escreveu a apresentação.
Três anos
depois, os esquizofrênicos do CPN ganhavam seu próprio museu, inaugurado dentro
das dependências do hospital. E é onde permanece até hoje, tendo em seu acervo
cerca de 350 mil obras - entre pinturas desenhos, modelagens e xilogravuras.
Somente um dos artistas, Fernando Diniz, tem na sua coleção 28 mil obras.
"As coleções foram se formando ao longo dos anos e são fruto dos
principais estudos da dra. Nise. Em 2002, as principais foram tombadas pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)", conta
Gladys, que se diz honrada por ter convivido com Nise da Silveira e se
autodenomina uma "niseriana".
A
diretora de Projetos da instituição lembra ainda que a instituição é, na
verdade, um "museu vivo", pois nos dias de hoje ainda há pessoas
usando a criatividade para exprimir suas emoções, criando obras artísticas.
Como a clientela é flutuante, não há dados precisos sobre quantas pessoas
ajudam hoje na pulsação desse "museu vivo". "Vocês jornalistas,
como dizia a dra. Nise, são muito quantitativos", brinca ela,
acrescentando em seguida que a estimativa é de que os ateliês do Museu recebam
de 20 a 25 pessoas por dia.
A Casa
das Palmeiras, por sua vez, pode ser freqüentada por 40 a 45 clientes
diariamente. A palavra "clientes", aliás, começou a ser usada por
Nise da Silveira - e hoje é utilizada pela maioria de seus discípulos e nas
instituições que criou - para se referir aos freqüentadores da Casa. Mudando a
linguagem, pretendia mudar também a forma como as pessoas com transtornos
mentais eram tratadas.
E foi o
que conseguiu. Fundada em 1956, a Casa das Palmeiras funcionava em um prédio
emprestado. Seu nome era uma alusão às palmeiras que existiam no terreno,
situado na Tijuca, Rio de Janeiro. Depois de ter passado por um segundo
endereço, a partir de 1980 a Casa das Palmeiras começou a funcionar no bairro
de Botafogo, onde permanece até hoje.
A
motivação da dra. Nise para fundar a Casa foi a percepção da grande quantidade
de reinternações em hospitais psiquiátricos. De cada 25 internados, 17 eram
reingressos. Sua intenção foi oferecer um local de tratamento diferenciado às
pessoas que tinham alta.
"Um
destes possíveis erros (entre outros) estaria na saída do hospital, sem nenhum
preparo adequado do indivíduo, quando apenas cessavam os sintomas mais
impressionantes do surto psicótico. Não era tomado em consideração que a
vivência da experiência psicótica abala as próprias bases da vida psíquica.
Durante vários anos pensei quanto seria útil um setor do hospital e a vida na
sociedade", escreve a psiquiatra.
Na Casa
das Palmeiras, médicos participam das atividades expressivas junto com os
pacientes, que recebem orientação quando necessário. Todos fazem as refeições
em conjunto, sem discriminação de lugares especiais. A instituição foi pioneira
no Brasil nesta forma de tratamento em regime aberto, tal qual como apenas
recentemente passou a ser implementado, com a criação dos Centros de Atenção
Psicossocial (CAPs). "A instituição tinha claramente a intenção de
oferecer um atendimento mais humano", avalia Paulo Amarante, pesquisador
da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), especialista em saúde mental e um dos
precursores da reforma psiquiátrica no Brasil.
Os inumeráveis estados de Nise
Foi com
esses princípios, concretizados na Casa das Palmeiras, de relacionamento entre
as pessoas com doença mental e aquelas ditas normais que Nise trabalhou sua
vida inteira. As pessoas que conviveram com ela são unânimes em afirmar: ela
direcionava uma carga maior de afeto às minorias, aos que tinham alguma
deficiência ou doença. "Era bem mais tolerante com as pessoas com
problemas, com os sofridos - e com os animais", recorda Gladys. Calaça tem
opinião muito parecida: "Era generosa com os animais e os deserdados da
sorte", diz o psiquiatra. Amarante completa o pensamento: "Ela se
dedicava a lutar pelas pessoas que não poderiam lutar sozinhas".
As
lembranças de uma pessoa generosa, que fez da afetividade no tratamento
psiquiátrico uma doutrina, confundem-se com relatos de uma médica firme e
rígida. "Chegava a ser intransigente com a recusa a vender os quadros
pintados pelos seus clientes e chegou a criticar alguns pontos da reforma
psiquiátrica que se defendia no início da década de 80. Mais tarde conheceu e entendeu
melhor a proposta", relembra Amarante, que conviveu com a médica de 1976 a
1986, no CPN. "Se fossem vendidas pinturas, esculturas e outros objetos,
não existiria museu algum. Dá pra entender? Seriam dispersadas as formas
reveladoras do interior da psique, isto é, o material que verdadeiramente
interessa à psiquiatria"*, justifica ela, em depoimento a Ferreira Gullar.
"Carismática, mas com personalidade forte", define Amarante.
"Ela
era dura e doce ao mesmo tempo. Bastante dura, aliás, com seus discípulos.
Chamava a atenção em público mesmo. A mim não repreendia muito - coisa da qual
me ressentia", lembra o também alagoano Calaça.
Carismática.
Personalidade forte. Dura. Doce. Firme. Pessoa brilhante. Memória invejável.
Generosidade intelectual. Tolerante. Rígida nos princípios. Libertária. Todas
essas palavras e adjetivos já foram usados, em testemunhos e livros, para
identificar Nise da Silveira - uma pessoa que, pela grandeza de pensamento e
idéias, parecia não caber no corpo, sempre magro e pequeno. Suas idéias, então,
ganharam o mundo e fizeram discípulos. Seu nome batiza hoje o antigo CPN -
atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira - e uma série
de outras instituições, até mesmo estrangeiras. Seu legado é rico: "Eu diria
que é triplo: técnico, por consolidar o uso de terapias não-invasivas;
político, pois mudou o modelo de assistência psiquiátrica, e humanista, pois
ensinou a tratar com afeto as pessoas com doença mental, com todo o respeito
que elas merecem", avalia Calaça. Sua rebeldia tomou forma de revolução,
que se tornou concreta. E tudo porque ela não quis apertar o botão.
(*) "Nise da Silveira", de Ferreira Gullar, publicado pela Relume Dumará, série Perfis do Rio.
Nise da Silveira, em julho de 1970.
Acervo Arquivo Nacional.
OBRAS PUBLICADAS
·
SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: José
Álvaro Ed. 1968.
·
SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de
Janeiro: Alhambra, 1981.
·
SILVEIRA, Nise da. Casa das Palmeiras. A emoção de lidar. Uma
experiência em psiquiatria. Rio de Janeiro: Alhambra. 1986.
·
SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens.São Paulo: Ática,
1992.
·
SILVEIRA, Nise da. Nise da Silveira. Brasil,
COGEAE/PUC-SP 1992.
·
SILVEIRA, Nise da. Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro:
Francisco Alves. 1995.
·
SILVEIRA, Nise da. Gatos - A Emoção de Lidar. Rio de
Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1998.
MATTAR,
Maria Eduarda. Nise da
Silveira: rebelde com causa. Mar. 2005.
Palavras-chave: nise
da silveira, museu de imagens do inconsciente, ferreira gullar, eletrochoque,
tratamento psiquiátrico, terapia ocupacional, pinturas, desenhos, arte, centro
psiquiátrico nacional, casa das palmeiras, carl gustav jung, ii congresso
internacional de psiquiatria, museu vivo, centros de atenção psicossocial,
caps, reforma psiquiátrica
http://www.lainsignia.org/2005/marzo/cyt_008.htm
FOTOS E OBRAS PUBLICADAS: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nise_da_Silveira